Eustáquio Prates Santander, pioneiro da antiga Fazenda Britânia, nasceu em 20 de setembro de 1936 no núcleo Rio Branco, também denominado antes de Porto 12 de Outubro¹ ou Porto Núnez, junto ao Rio Paraná (agora submerso pelas águas do reservatório da Itaipu Binacional). É filho da brasileira Ramona Benitez² e do paraguaio Sandálio Prates³.
O pioneiro foi aluno da primeira escola instalada na antiga Fazenda Britânia, construída no núcleo Rio Branco, da qual foi professor Raphael Garcia⁴.
Em conversa extra da entrevista, Eustáquio Prates Santader, entre informações repassadas e descritas anteriormente, nominou todos os moradores que residiam no Rio Branco, além de sua família: Paschoal Gomes, Paschoal Rejala, Guilhermo Aquino, Pedro Souza, José Mareco, Paulino Gimenez, Amadeo Morel, Francisco Figueiredo (tio de sua mãe), Guilhermo Lopez, Sebastião Gonçalvez, (…) Carmona (exercia a função de inspetor de quarteirão no Rio Branco), Theófilo Guerra, o espanhol Ovieiro e José Gulka, este último não de origem paraguaia. O informante desconhece a sua origem.
Perguntado de onde provinha a alimentação dos moradores, o pioneiro informou que a comunidade, além da criação de animais domésticos, cultivava feijão, mandioca, batata e muita laranja. E aquilo que não era possível produzir e, no entanto, era necessidade, vinha da Argentina. Recorda dos vapores Salto, Espanha e Cruz de Malta que ancoravam no porto trazendo mercadorias.
Eustáquio Prates Santander casou com Cristina Freitas, em 08 de novembro de 1960, na cidade de Corbélia (PR), para onde o casal tinha se dirigido para trabalhar. Cristina Freitas era natural de Campanário⁵ (MS), filha do casal Maria Joana (nascida Centurion) e João Freitas. O namoro começou quando os pais já moravam na cidade de Guaíra e Eustáquio prestava serviço militar no quartel local.
A partir de 1977, Eustáquio Prates Santander e família fixaram residência em Raul Peña, Paraguai, onde o rondonense Plínio Kleemann desenvolvia um projeto de colonização.
Ali foi auxiliar de medições e demarcação de lotes e perfurava poços para os novos moradores. Somente retornou do Paraguai e passou a residir em Pato Bragado para tratamento da saúde da esposa, falecida nos anos seguintes. Descapitalizado com os gastos que teve com a doença da mulher, o pioneiro ficou sem condições de retornar para Raul Peña. Reside em Pato Bragado como aposentado, em casa alugada. (13.12.2019).
¹ Era ponto de embarque de erva-mate e madeiras da empresa argentina Núñez Y Gibaja¹͘͘˙², com sede em Posadas, Misiones. Eram sócios-proprietários Pedro Núñez e Lázaro Gibaja (NÚÑEZ, 1997: 39).
Mais tarde neste local do porto, outra empresa argentina, a Compañia de Maderas del Alto Paraná, com sede em Buenos Aires, instalou uma fábrica de extração de essências por destilação, de erva-cidreira, laranja-apepu¹˙² e flores. O produto extraído era exportado às cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, transportado por terra até Guaíra e de lá Rio Paraná acima até a cidade paulista de Presidente Epitácio, de onde as barricas com as essências seguiam de trem até o destino final (NIEDERAUER, 2011: 37 e 38).
¹˙² É uma espécie forasteira, conhecida cientificamente com Citrus aurantium, originária do sudoeste asiático. Foi introduzida no Brasil nos tempos coloniais. Sua dispersão aconteceu via zoocoria (mamíferos e aves) e cresce no fragmento de sub-bosque (RUDOLFO, 2008: 1).
Era extraído o petit-grain das folhas secas e das cascas da fruta. É uma essência oleosa aromática usada no fabrico de perfumes e na aromaterapia (nota do pesquisador).
¹˙³ A empresa foi proprietária do Imóvel Lopeí, situado entre os atuais municípios de Toledo e Cascavel. A área foi adquirida do Governo do Paraná em 25 de agosto de 1905, por compra a título pleno. Anos mais tarde a empresa posadenha repassou o imóvel ao argentino Teodoro Mateo Soldati¹˙³˙¹ (NIEDERAUER, 2011: 20 e 21).
¹˙³˙¹ Quando iniciou o processo de ocupação/colonização do Oeste do Paraná, Soldati começou um processo de loteamento de sua área e passou a vender lotes a colonos. Chegou a instalar uma imobiliária em Toledo. Sabe-se que procuradores constituídos enquanto ele se deslocava para temporadas na Argentina, transferiram ardilosamente elevado número de lotes aos seus próprios nomes (nota do pesquisador).
* O historiador toledano Ondy Hélio Niederauer assinala que Teodoro Mateo Soldati foi sócio da empresa Núñez Y Gibaja. Esta afirmação não é corroborada por Júlio Núñez, filho de Pedro Núñez, em “Iverareta”, de sua autoria. Em nenhuma página o autor menciona que Soldati tinha vínculo com a empresa de seu pai e do sócio Gibaja.
² Relata o pioneiro Eustáquio Prates Santander que a sua mãe nasceu na Linha Marrecas, no atual distrito rondonense de Margarida, filha do casal de argentinos Saturnina Benitez e (…) Figueiredo. E quando a Compañia de Maderas del Alto Paraná paralisou as atividades em Porto Britânia, o casal de avós maternos retornou à Argentina sem o neto e nunca saber em que localidade fixou residência. Ramona Benitez faleceu em 17 de março de 1984 e seu corpo foi sepultado no cemitério da sede municipal de Pato Bragado.
³ É natural da cidade paraguaia de Villarrica³·¹, localizada entre as cidades de Encarnación e a capital Assunção, onde nasceu em 03 de setembro de 1903, filho de Leonarda (nascida Santander) e Manoel Prates. Chegou à localidade de Rio Branco motivado por desentendimento político-partidário com a família. Era simpatizante do Partido Colorado e os familiares eram do Partido Liberal. Por causa dessa desavença nunca mais visitou a família no Paraguai, exceto uma única vez por ocasião do falecimento de sua mãe, notícia que recebeu por rádio, informa Eustáquio.
O filho narra que seu pai Sandálio era capataz da destilaria no Rio Branco e também coordenador de manutenção em Porto Britânia, no tempo da Compañia de Maderas del Paraná, e no Porto Mendes, pertencente à Companhia Matte Laranjeira. Revela que seu pai falava fluentemente, além do espanhol, o português e o inglês. E que era homem de confiança dos diretores da empresa. Por ocasião da chegada dos revolucionários paulistas na região, a Maderas del Paraná o transferiu para a margem paraguaia e deixou aos seus cuidados todo o dinheiro.
Detalha também que na casa de seus pais somente era falado o espanhol (a mãe não sabia praticamente nada de português), assim como nas residências dos outros moradores locais, nos contatos intervicinais e com a empresa.
Sandálio Prates Santander faleceu em 30 de abril de 1993, na cidade de Pato Bragado, e seu corpo foi sepultado no cemitério da sede municipal.
³·¹ Melgarejo, funda a Vila Rica Del Espiritu Santo (a cidade itinerante), à 350 km ao leste dos saltos do rio Paraná. — Em 1592, por decisão do capitão Rui Díaz de Gusmán, Vila Rica é transferida para a costa do Ivaí, na foz do Corumbataí, atualmente município de Fênix (PR).. Foi destruída pelos paulistas em 1632. — 7 vezes mudou de lugar, até se instalar na atual Vilarrica, no Paraguai (NEGRÃO, Francisco. Efemérides Paranaenses. Revisão e ampliação de Carlos Zatti. Curitiba: Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, enviado via meio digital (e-mail), em 13.05.2021).
⁴ Era natural de Foz do Iguaçu, onde nasceu em 24 de novembro de 1915, filho de Jeronyma (de origem paraguaia) e Pedro Garcia( argentino). Casou-se com Carmen Medina (viúva que morava no Rio Branco), natural do Paraguai, filha de Trindade Medina e Matilde Chamorro (natural de Encarnación), nascida em 16 de julho de 1913 e falecida em Pato Bragado em 04 de fevereiro de 2000.
⁵ Foi um núcleo urbano fundado pela Companhia Matte Larangeira e partir de 26 de abril de 1921 foi sede da administração da empresa (MAGALHÃES, 2013 : 111.)
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As informações aqui detalhadas são complementares à entrevista ou vice-versa.
Fontes consultadas:
1. NIEDERAUER, Ondy Hélio. Toledo no Paraná: a história de um latifúndio improdutivo, sua reforma agrária, sua colonização, seu progresso. 3ª edição. Toledo: Tolegraf, Impressos Gráficos Ltda. 2011.
2. NÚÑEZ, Júlio. Ivirareta: País de Arboles. 3ª edição. Posadas: Ediciones Montoya. 1997.
3. MAGALHÃES, Luiz Alfredo Marques. Retratos de uma Época: os Mendes Gonçalves & a Cia. Matte Laranjeira. 2ª edição. Campo Grande: Gráfica e Editora Alvorada. 2013. 235 p.:Il: anexos.
4. RODOLFO, Allyne Mauymi et alli. Citrus aurantium L. (laranja-apepu) e Hovenia dulcis Thumb. (uva-do-japão): espécies exóticas invasoras da trilha do Poço Preto, no Parque Nacional do Iguaçu, Paraná, Brasil. Nota científica. Revista Brasileira de Biociências. Porto Alegre: v. 6, supl. 1, p. 16 -018, set 2008, publicado em: <http://www.ufrgs.br/seerbio/ojs/index.php/rbb/article/view/1076/794 >. Acesso em 15.10.2019.