A história de Marechal Cândido Rondon e de outras localidades do Oeste do Paraná foi marcada pela chegada de famílias provenientes de diferentes regiões, portadoras de experiências, conhecimentos, costumes e formas próprias de compreender o mundo. Entre esses grupos estavam muitas famílias vindas do Rio Grande do Sul, que se estabeleceram na região especialmente no contexto dos movimentos migratórios e do processo de colonização ocorrido ao longo do século XX.
É sobre as memórias dessas famílias de origem gaúcha, suas experiências de deslocamento, seus vínculos afetivos e a permanência de determinadas tradições que este texto pretende refletir. Memórias que não representam, evidentemente, toda a diversidade histórica e cultural de Marechal Cândido Rondon, mas constituem uma das dimensões importantes da formação social e cultural do município e da região.
Deixar o lugar de origem significava muito mais do que percorrer uma distância geográfica. Representava afastar-se de familiares, vizinhos, paisagens e espaços conhecidos para enfrentar as incertezas de uma nova realidade. Entretanto, mudar de território não significava abandonar as referências culturais construídas ao longo da vida.
Muitas das famílias gaúchas que chegaram às terras onde construiriam suas trajetórias e participariam da história de Marechal Cândido Rondon trouxeram consigo coragem, esperança e sonhos de uma nova vida. Mas, junto às poucas coisas que cabiam na mudança, vieram também lembranças de uma terra querida, costumes aprendidos em família e um sentimento de pertencimento que a distância não apagou.
Aqui fizeram morada, trabalharam, constituíram famílias, criaram seus filhos e construíram novas histórias. Ao mesmo tempo em que se integravam ao novo espaço, mantinham referências culturais da terra de origem. Entre um chimarrão e outro, nas conversas ao redor da mesa, nas músicas, nas danças, nos sabores, nas festas e nas histórias familiares, transmitiam às novas gerações um pouco do mundo que haviam deixado para trás.
Essas lembranças, contudo, não permaneceram imutáveis. A memória é construída e reconstruída pelas experiências do presente. Como nos ajuda a compreender Maurice Halbwachs, as lembranças individuais encontram apoio nos grupos sociais dos quais fazemos parte.
A família, os círculos de convivência, as associações e outros espaços comunitários contribuem para que determinadas experiências sejam recordadas, compartilhadas e transmitidas.
Nesse sentido, as memórias das famílias de origem gaúcha não dizem respeito somente ao lugar de onde vieram seus antepassados. Elas também falam sobre a experiência de construir uma nova vida no Paraná, sobre as dificuldades encontradas, os vínculos estabelecidos e as formas pelas quais antigas referências culturais foram incorporadas a uma nova realidade.
Por isso, os costumes trazidos pelos migrantes não devem ser compreendidos apenas como uma reprodução do que existia no Rio Grande do Sul. Ao serem vivenciados em outro espaço e em diferentes tempos, também foram transformados. As tradições acompanharam as mudanças das famílias e da própria sociedade, adquirindo novos sentidos para filhos, netos e bisnetos que, muitas vezes, nasceram no Paraná, mas cresceram ouvindo histórias sobre o lugar de onde vieram seus antepassados.
Décadas se passaram. Os filhos cresceram, vieram os netos e os bisnetos, e muitos desses costumes permaneceram. São gestos aparentemente simples, mas capazes de carregar histórias inteiras. Preparar o chimarrão, reunir a família, ouvir uma música, participar de uma dança, vestir uma indumentária tradicional ou recordar as histórias contadas pelos mais velhos pode constituir uma forma de estabelecer uma ponte simbólica entre aqueles que chegaram e aqueles que hoje dão continuidade às suas trajetórias.
Nesse processo, a tradição também se transforma em linguagem de pertencimento. Não se trata apenas de recordar o Rio Grande do Sul como um espaço geográfico, mas de preservar determinadas referências por meio das quais essas famílias reconhecem e narram parte de sua própria história.
É nesse contexto que a Semana Farroupilha adquire significado especial para muitas famílias de origem gaúcha residentes em Marechal Cândido Rondon e na região. Mais do que um calendário de festividades, ela pode ser compreendida como um momento de evocação e compartilhamento de memórias. As músicas, as danças, a culinária, o chimarrão, os encontros e outras manifestações tradicionalistas tornam visíveis referências culturais que atravessaram fronteiras e gerações.
Para essas famílias, celebrar tais tradições significa também homenagear pais, avós e bisavós que deixaram seu lugar de origem e participaram da construção de novas comunidades. Homens e mulheres que aprenderam, em suas próprias trajetórias, que é possível criar raízes em uma nova terra sem necessariamente romper os vínculos afetivos e culturais com aquela que ficou para trás.
Ao mesmo tempo, é importante compreender que essas memórias constituem uma entre as diferentes memórias que integram a história de Marechal Cândido Rondon e do Oeste do Paraná. A formação regional resultou da presença e do encontro de diferentes grupos, culturas, trajetórias e experiências históricas, inclusive anteriores aos processos de colonização do século XX. Reconhecer e valorizar as memórias das famílias de origem gaúcha significa, portanto, preservar uma parte dessa história sem apagar a diversidade de sujeitos que também participaram da constituição da sociedade local.
A memória é igualmente feita de seleções. Algumas experiências são constantemente lembradas; outras permanecem restritas aos espaços familiares; algumas são esquecidas ou silenciadas. Por isso, documentos, fotografias, objetos, festas, relatos orais e costumes cotidianos constituem fontes importantes para compreender não apenas o que uma comunidade viveu, mas também aquilo que escolheu recordar e transmitir às gerações seguintes.
A Semana Farroupilha pode ser vista, nesse sentido, como um espaço privilegiado de atualização dessas memórias. O passado é trazido ao presente não exatamente como aconteceu, mas a partir dos significados que possui para aqueles que o recordam hoje. É nesse movimento que memória e identidade se aproximam: ao contar de onde vieram seus antepassados, as pessoas também dizem algo sobre quem são, sobre suas referências culturais e sobre os grupos aos quais sentem pertencer.
Porque algumas heranças não estão apenas guardadas em documentos, fotografias ou objetos antigos. Elas permanecem nos costumes, nas palavras, nos sabores, nas lembranças compartilhadas e, sobretudo, nos afetos que atravessam gerações.
Valorizar a Semana Farroupilha em Marechal Cândido Rondon e na região é, portanto, reconhecer a importância dessas memórias para as famílias que mantêm vínculos com a cultura gaúcha e, ao mesmo tempo, compreender sua presença dentro da pluralidade cultural que caracteriza a sociedade local. Preservar uma tradição não significa manter o passado imóvel, mas permitir que cada geração dialogue com aquilo que recebeu daqueles que vieram antes, atribuindo-lhe novos sentidos.
Talvez esteja justamente aí uma das maiores forças da memória: permitir que o lugar de onde partimos continue, de alguma maneira, habitando o lugar onde escolhemos permanecer.
Muitas famílias deixaram o Rio Grande do Sul para construir suas vidas no Oeste do Paraná. O tempo passou, novas gerações nasceram e Marechal Cândido Rondon tornou-se o lugar de pertencimento de muitos filhos, netos e bisnetos daqueles migrantes. Ainda assim, fragmentos daquela terra de origem permaneceram vivos nas histórias familiares e nas práticas culturais transmitidas entre gerações.
Assim, quando uma família prepara o chimarrão, quando uma música volta a ser ouvida, quando os mais jovens aprendem uma dança ou quando alguém conta novamente a história da chegada de seus pais, avós ou bisavós, não se está apenas repetindo uma tradição. Está-se também acionando uma memória familiar, reafirmando vínculos entre gerações e atribuindo sentido, no presente, às experiências daqueles que vieram antes.
É por isso que, para muitas dessas famílias, a distância nunca significou esquecimento. Elas deixaram geograficamente o Rio Grande do Sul e construíram novas raízes em terras paranaenses. Mas conservaram, transformaram e transmitiram parte das referências culturais que trouxeram consigo.
Eles deixaram o Rio Grande do Sul, mas, por meio da memória, dos afetos e das tradições transmitidas entre gerações, o Rio Grande nunca os deixou.
E é justamente quando essas lembranças são compartilhadas que deixam de pertencer apenas ao universo privado das famílias e passam a integrar também a memória social da comunidade, uma memória plural, constituída por diferentes trajetórias, experiências e pertencimentos que, juntos, ajudam a compreender a história de Marechal Cândido Rondon.

Artigo escrito por Lori Speck.
Mestre em história social pela UFF de RJ, historiadora, pesquisadora, escritora e autora, entre outras obras, de “Memórias e vozes contam a história dos distritos ” 1ª e 2ª edição.