Os Clubes 4-S constituíram uma importante iniciativa de formação e organização da juventude rural brasileira, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980. Inspirados nos Clubes 4-H desenvolvidos nos Estados Unidos, foram introduzidos no Brasil no contexto de expansão dos programas de extensão rural, que buscavam difundir conhecimentos técnicos, novas práticas agrícolas e formas de organização comunitária entre as famílias do campo.
O primeiro Clube 4-S brasileiro teria sido criado em 15 de julho de 1952, na comunidade de Igrejinha, município de Rio Pomba, em Minas Gerais. A experiência posteriormente se expandiu para diferentes regiões do país, acompanhando a atuação das instituições de assistência técnica e extensão rural. Estados como Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tiveram presença significativa desses clubes.
A identidade do movimento estava representada por um trevo de quatro folhas, contendo em cada uma delas a letra “S”. Os quatro “S” sintetizavam os princípios que deveriam orientar a formação dos jovens: Saber, relacionado à aquisição de conhecimentos e ao aprimoramento técnico; Sentir, associado aos valores, à convivência e ao compromisso comunitário; Saúde, voltado aos cuidados com o bem-estar e a qualidade de vida; e Servir, relacionado à cooperação, à liderança e à participação na comunidade.
Os clubes reuniam principalmente jovens pertencentes às famílias rurais e combinavam formação técnica, atividades práticas e experiências de sociabilidade. Entre os rapazes, tiveram destaque os conhecimentos relacionados à agricultura, à criação de animais, à produtividade e às novas técnicas aplicadas ao campo. Para as moças, eram frequentemente desenvolvidas atividades relacionadas à economia doméstica, alimentação, hortas, higiene e cuidados com a família. Essa divisão também expressava as concepções de gênero existentes na sociedade rural daquele período e, por isso, deve ser compreendida dentro de seu contexto histórico.
Mais do que espaços destinados exclusivamente ao aprendizado agrícola, os Clubes 4-S procuravam formar jovens capazes de exercer liderança e participar das transformações de suas comunidades. Por meio de reuniões, experiências práticas, exposições, concursos e outras atividades coletivas, contribuíram para a circulação de conhecimentos e para a aproximação da juventude rural com os programas de extensão que acompanhavam o processo de transformação da agricultura brasileira.
A partir das décadas seguintes, especialmente com as mudanças ocorridas nas estruturas de extensão rural e com o fortalecimento de outras formas de organização da juventude no campo, os Clubes 4-S perderam gradativamente o protagonismo que haviam alcançado. Entretanto, sua presença permaneceu registrada nas memórias de antigos participantes, em fotografias, documentos e até mesmo em denominações comunitárias preservadas em algumas localidades.
Pedro Tonetta e as experiências juvenis nos Clubes 4S
Entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, as transformações que atingiam o meio rural também se faziam presentes na formação dos jovens pertencentes às famílias de agricultores de Marechal Cândido Rondon. Novas técnicas de cultivo, sementes, fertilizantes e formas de organização começavam a integrar o cotidiano das propriedades, embora nem sempre fossem recebidas sem reservas pelas gerações que haviam construído sua experiência agrícola a partir de outros conhecimentos e práticas.
É nesse contexto que se inserem as lembranças de Pedro Tonetta sobre sua participação nos Clubes 4S. Hoje, aos 70 anos, Pedro conserva recordações daquele período e uma fotografia, provavelmente de 1969 ou 1970, na qual aparece ao lado de outros jovens com quem compartilhava as atividades do clube. A imagem foi registrada no salão do Botafogo, espaço que, em suas lembranças, permanece diretamente associado aos encontros e aprendizados da juventude.
Mais de cinco décadas separam o jovem presente na fotografia daquele que hoje procura atribuir palavras e significados às experiências vividas. Essa distância temporal não diminui o valor de seu testemunho. Ao contrário, permite compreender a memória como uma construção realizada entre passado e presente. Recordar os Clubes 4S significa, nesse sentido, recordar também os companheiros, os instrutores, a família, a propriedade rural e os espaços de sociabilidade que davam sentido à experiência juvenil.
O Avante Rondon e os encontros no salão do Botafogo
Pedro Tonetta situa seu ingresso no Clube 4S no ano de 1969. Permaneceu vinculado às atividades até aproximadamente 1972 ou 1973. Segundo suas lembranças, não havia um período previamente estabelecido para que o jovem permanecesse no programa. A participação era relativamente livre e poderia continuar enquanto houvesse interesse e enquanto o participante considerasse que ainda tinha algo a aprender.
O clube do qual Pedro fazia parte chamava-se Avante Rondon e era coordenado por Edemar Lohmann (in memoriam). No mesmo espaço funcionava outro Clube 4S, coordenado pelo senhor Dresch, cujo nome Pedro já não consegue recordar. Os integrantes dos dois grupos se reuniam para acompanhar conjuntamente as orientações.
As reuniões aconteciam no salão do Botafogo. Na fase que Pedro considera mais intensiva, eram realizadas praticamente todos os sábados. Posteriormente, passaram a ocorrer em intervalos maiores, a cada quinze ou trinta dias.
A lembrança do salão é significativa porque permite perceber que a experiência dos Clubes 4S não se restringia à transmissão de conhecimentos técnicos. O espaço das reuniões constituía também um ambiente de convivência entre jovens que compartilhavam experiências semelhantes. Ali se encontravam filhos de agricultores, discutiam-se práticas agrícolas, acompanhavam-se experiências e estabeleciam-se relações que integravam trabalho, aprendizagem e sociabilidade.
As orientações gerais, segundo Pedro, provinham da ACARPA. Ao recordar a instituição mais de cinquenta anos depois, ele próprio demonstra certa distância temporal ao comentar que nem sabe se ela ainda existe. Pequenas observações como essa são reveladoras da natureza da memória oral: o narrador movimenta-se constantemente entre o tempo vivido e o presente a partir do qual recorda.
Pedro também se lembra da presença de um representante norte-americano, cujo primeiro nome acredita ter sido William. Sua recordação é cautelosa: “se não me falha a memória”. Segundo ele, o visitante esteve uma vez junto ao grupo, aparentemente com a finalidade de trocar experiências e observar como os conhecimentos transmitidos estavam sendo assimilados pelos jovens.
A imprecisão em relação ao nome completo do visitante ou à natureza institucional daquela visita não deve ser preenchida artificialmente. Na pesquisa histórica, aquilo que não é lembrado também precisa ser respeitado. A memória não funciona como um arquivo no qual os acontecimentos permanecem armazenados de maneira integral e imutável. Ela seleciona, reorganiza e atribui novos significados às experiências conforme o tempo e as circunstâncias da rememoração.
Dos ensinamentos à prática: conhecimentos que atravessaram a vida
Nas lembranças de Pedro, não existia propriamente uma conclusão formal do curso. Não havia, portanto, um momento final acompanhado da entrega de certificados. Eram realizados alguns testes destinados a verificar o aproveitamento dos conhecimentos adquiridos.
Também não se recorda de intercâmbios sistemáticos com outros Clubes 4S da região. Os contatos mais amplos parecem ter ocorrido especialmente durante exposições e feiras agropecuárias, ocasiões nas quais eram apresentados resultados das experiências desenvolvidas pelos participantes. Entre os produtos que ganhavam destaque estavam a soja, o milho e os suínos.
No caso específico dos dois clubes que se reuniam no Bairro Botafogo, Pedro recorda que as atividades se concentravam no estudo da soja e do milho. É justamente nesse ponto que sua memória pessoal permite compreender de maneira concreta como os conhecimentos discutidos nos encontros chegavam às propriedades rurais.
O aprendizado não permanecia restrito ao salão. Ele precisava ser experimentado.
Pedro lembra que seu pai lhe reservou uma “canhada” da propriedade para que pudesse cultivar uma variedade de soja de porte baixo, com vagem branca e peluda. A aparência da plantação ficou registrada de maneira particularmente viva em sua memória: segundo ele, “parecia uma bola de neve”. Em outra área, plantou milho de espigas grandes.
A experiência possui especial importância porque revela uma relação entre conhecimento técnico, juventude e estrutura familiar. O jovem não dispunha autonomamente da terra, mas recebeu do pai uma parcela na qual pôde colocar em prática aquilo que estava aprendendo. A propriedade familiar transformava-se, assim, em espaço de experimentação.
Pedro reconhece que sua família demonstrava certo ceticismo diante das novas técnicas agrícolas. Entretanto, os resultados obtidos contribuíram para modificar essa percepção. Em suas palavras, o aprendizado proporcionado pelo Clube 4S foi de “grande valia”, pois permitiu que a família observasse concretamente a possibilidade de obtenção de maior rendimento.
Foi também nesse ambiente que Pedro afirma ter conhecido produtos e procedimentos que posteriormente se tornariam comuns na agricultura. Ele recorda especialmente os adubos químicos e os inoculantes, novidades para aquele jovem agricultor no final da década de 1960 e início dos anos 1970. Ao mesmo tempo, guarda a lembrança de que, nas experiências desenvolvidas naquele contexto, não era permitido utilizar “veneno” durante o desenvolvimento das culturas.
Essa recordação é particularmente interessante para a pesquisa histórica porque demonstra como determinadas tecnologias, hoje naturalizadas no cotidiano agrícola, foram um dia percebidas como novidades. A memória de Pedro permite recuperar justamente esse momento de descoberta.
Dos ensinamentos à prática: conhecimentos que atravessaram a vida
Entre todas as informações fornecidas por Pedro, talvez seja a narrativa sobre o destino da produção aquela que melhor expresse o significado que a participação no Clube 4S assumiu em sua juventude.
A soja cultivada na área cedida pelo pai produziu, segundo sua lembrança, 34 sacas de 60 quilos. O milho também proporcionou resultados concretos. Com parte dessa produção, Pedro adquiriu uma leitoa e reservou outra parte para sua alimentação.
Nesse momento, o aprendizado agrícola começava a produzir algo que ultrapassava o conhecimento técnico: proporcionava ao jovem uma experiência de autonomia.
A soja foi comercializada na Casa Yerke. Pedro recorda que a proprietária inicialmente pretendia realizar o pagamento por meio de mercadorias disponíveis no próprio estabelecimento. Ele não aceitou. Queria receber o dinheiro correspondente à produção.
A decisão permanece viva em sua memória porque o dinheiro adquirido com aquele trabalho ganhou materialidade em dois objetos: uma bicicleta e uma pequena máquina de datilografia.
A bicicleta foi comprada na oficina de Janota. A pequena máquina de datilografia, por sua vez, foi adquirida na Casa Paraguaçu, estabelecimento de Osvaldo Brendle.
Esses objetos aparentemente cotidianos possuem grande densidade histórica quando observados pela perspectiva da memória. A bicicleta não era apenas um bem de consumo. Para um jovem do meio rural, poderia significar maior mobilidade, independência e possibilidade de circulação. Da mesma maneira, a máquina de datilografia introduzia outro universo de possibilidades, relacionado à escrita e ao domínio de uma tecnologia que não pertencia diretamente ao trabalho da lavoura.
Há, portanto, uma sequência significativa na narrativa de Pedro: aprendizado, experimentação, produção, comercialização e aquisição de bens próprios. O conhecimento recebido no Clube 4S foi colocado em prática na terra cedida pelo pai; a terra produziu; a produção foi comercializada; e o resultado do trabalho permitiu ao jovem realizar escolhas próprias.
É justamente nessa articulação entre experiência e lembrança que o testemunho ganha sua maior força.
Dos Clubes 4S aos jovens cooperativistas
Pedro situa seu afastamento do Clube 4S aproximadamente entre 1972 e 1973. Em sua interpretação, o enfraquecimento dos clubes esteve relacionado ao fortalecimento do cooperativismo entre as famílias rurais.
Segundo sua memória, à medida que os pais dos jovens passaram a se associar à Copagril, parte da atenção anteriormente destinada aos Clubes 4S deslocou-se para novas formas de organização vinculadas à cooperativa. Nesse contexto teriam surgido os clubes de jovens cooperativistas.
Pedro recorda inclusive a criação, na Copagril, de uma organização que identifica pela sigla ACJC, destinada aos jovens filhos de associados.
Esse trecho do depoimento merece ser confrontado com documentação institucional, atas, jornais e materiais da própria cooperativa e das entidades de extensão rural. Mais do que simplesmente confirmar ou negar a lembrança, esse cruzamento de fontes poderá esclarecer como ocorreu a transição entre diferentes formas de organização da juventude rural no município.
A memória individual de Pedro oferece uma interpretação desse processo: para quem o vivenciou, a expansão do cooperativismo representou uma mudança nas formas de organização dos agricultores e de seus filhos. A pesquisa documental poderá demonstrar as dimensões institucionais dessa transformação.
Uma fotografia, muitas temporalidades

A fotografia com as frases: “Preparamos o futuro do Brasil – Trabalhamos para um Brasil melhor”, conservada por Pedro Tonetta adquire, nesse contexto, um significado que ultrapassa aquilo que foi registrado pela câmera em 1969 ou 1970. Guardada por mais de cinco décadas, ela estabelece uma ponte entre o jovem participante do Avante Rondon e o homem de 70 anos que hoje procura reconstruir aquela experiência.
Quando Pedro fala sobre a fotografia, sobre o salão do Botafogo, sobre Edemar Lohmann, sobre as plantações e sobre aquilo que comprou com sua produção, não está simplesmente recuperando acontecimentos intactos. Ele organiza experiências dispersas e lhes atribui sentido a partir do presente.
Alguns detalhes desapareceram. Pedro não recorda o nome do segundo clube, não consegue afirmar com segurança o nome completo do visitante norte-americano e apresenta como aproximados os anos da fotografia e de sua saída do programa. Outros elementos, entretanto, permanecem surpreendentemente concretos: a soja baixa de vagens brancas e peludas, a aparência de “bola de neve”, as 34 sacas colhidas, a negociação na Casa Yerke, a bicicleta comprada na oficina de Janota e a pequena máquina de datilografia adquirida na Casa Paraguaçu.
Aprender, participar e compartilhar: os saberes construídos no Clube 4-S
A experiência de Pedro Tonetta nos Clubes 4S permite aproximar a história das transformações agrícolas de Marechal Cândido Rondon da dimensão cotidiana daqueles que as vivenciaram. Processos que poderiam ser apresentados apenas por números de produtividade, expansão de determinadas culturas ou introdução de tecnologias aparecem, pela memória, relacionados às expectativas, resistências e descobertas de sujeitos concretos.
A princípio, temos um jovem participando de reuniões aos sábados no salão do Botafogo. Depois, encontramos esse mesmo jovem tentando reproduzir na propriedade familiar aquilo que havia aprendido. O pai, embora ainda desconfiado das novidades, permite que o filho utilize uma parcela da terra. A experiência apresenta resultados. A produção transforma-se em renda. Parte do milho transforma-se em uma leitoa; a soja, depois de comercializada, transforma-se em bicicleta e máquina de datilografia.
É nesse percurso que a história institucional dos Clubes 4S encontra a história de vida.
Mais de cinquenta anos depois, talvez não sejam todos os conteúdos das reuniões que permaneçam na memória de Pedro. Permaneceram, porém, determinadas experiências às quais ele atribui significado. E é precisamente essa seleção que torna seu testemunho historicamente relevante.
A memória individual dialoga, nesse caso, com uma memória social mais ampla sobre as transformações do campo, a formação dos jovens agricultores e a consolidação de novas formas de organização rural. Ao preservar a fotografia e narrar suas experiências, Pedro Tonetta também preserva fragmentos de uma história compartilhada por uma geração.
Registrar essas lembranças significa, portanto, mais do que reconstruir a trajetória dos Clubes 4S. Significa reconhecer os jovens que deles participaram como sujeitos das transformações históricas vividas no município. Suas experiências ajudam a compreender como conhecimentos circularam, como novidades foram recebidas pelas famílias, como práticas agrícolas se modificaram e como novas formas de organização passaram a integrar o cotidiano rural.
Nesse sentido, a fotografia guardada por Pedro e as lembranças que ela ajuda a mobilizar constituem parte do patrimônio histórico e afetivo da comunidade. Entre aquilo que a imagem fixou e aquilo que a memória ainda consegue narrar encontra-se uma experiência de juventude que, embora pertencente ao passado, continua participando da construção das identidades e do sentimento de pertencimento daqueles que fizeram e ainda fazem parte da história de Marechal Cândido Rondon.

Artigo escrito por Lori Speck.
Mestre em história social pela UFF de RJ, historiadora, pesquisadora, escritora e autora, entre outras obras, de “Memórias e vozes contam a história dos distritos ” 1ª e 2ª edição.