Memórias de General Rondon: Alfredo Bausewein, o “Mosquito”

Uma fotografia produzida no escritório da Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná S/A – MARIPÁ, na década de 1950, preserva o registro de três homens ligados à empresa de Willy Barth: da esquerda para a direita, Alzido Arlando Schroeder, Erich Ritscher e Alfredo Bausewein. Este último se tornaria conhecido entre os moradores de General Rondon por um apelido que praticamente substituiria seu próprio nome: “Mosquito”.
Uma fotografia produzida no escritório da Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná S/A – MARIPÁ, na década de 1950, preserva o registro de três homens ligados à empresa de Willy Barth: da esquerda para a direita, Alzido Arlando Schroeder, Erich Ritscher e Alfredo Bausewein. Este último se tornaria conhecido entre os moradores de General Rondon por um apelido que praticamente substituiria seu próprio nome: “Mosquito”.

Por trás da fotografia e do curioso apelido encontra-se uma trajetória profundamente relacionada às transformações vividas pela então Vila General Rondon nos primeiros anos de sua formação. Alfredo Bausewein participou diretamente da instalação da infraestrutura elétrica em um período no qual a energia começava a modificar o cotidiano das famílias, do comércio, das empresas e dos serviços públicos. Sua história individual, nesse sentido, também ajuda a contar uma parte da história da eletrificação do município.

Do Rio Grande do Sul para General Rondon

Filho de Frederico e Matilde Bausewein, Alfredo nasceu em Erechim, no Rio Grande do Sul, em 6 de junho de 1934. A família residia em Marcelino Ramos antes de se transferir para o Oeste do Paraná. Ainda no Rio Grande do Sul, Alfredo já trabalhava em uma auto elétrica, adquirindo conhecimentos que seriam importantes para sua trajetória profissional.

Naquele período, especialmente no início da década de 1950, a propaganda das terras do Oeste paranaense alcançava famílias do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A atuação da MARIPÁ contribuía para divulgar as possibilidades oferecidas pela região e atrair novos moradores.

Em 1953, Frederico Bausewein decidiu conhecer pessoalmente aquelas terras tão comentadas. Depois de chegar a General Rondon, adquiriu chácaras na Linha Guará, construiu a residência da família e retornou ao Rio Grande do Sul para buscar a esposa e os filhos.

A viagem da mudança levou cerca de oito dias. As estradas, prejudicadas pelas chuvas, tornaram o percurso difícil. Ao chegarem à travessia do Rio Guaçu, a carga era tão pesada que foi necessário transportá-la em duas viagens de balsa. A lembrança desse deslocamento evidencia as condições enfrentadas pelas famílias que chegavam à região naquele momento, quando as distâncias eram ampliadas pelas estradas precárias e pela limitada infraestrutura de transporte.

Enquanto permanecera em General Rondon preparando a mudança, Frederico conheceu Willy Barth e comentou que seu filho Alfredo trabalhava como eletricista. A experiência profissional do jovem despertou interesse e, quando a família chegou definitivamente à localidade, havia trabalho esperando por ele na MARIPÁ.

Um dos primeiros eletricistas

Arthur Mário Leduc já exercia a atividade de eletricista em General Rondon quando Alfredo chegou. Bausewein tornou-se, assim, o segundo eletricista da localidade. Ambos integram a história dos trabalhadores que participaram dos primeiros momentos da eletrificação rondonense.

Alfredo passou a realizar instalações elétricas que ligavam a rede existente nos postes às residências. Enquanto seus pais permaneceram na chácara da Linha Guará, trabalhando na agricultura, ele precisava deslocar-se constantemente em razão de sua profissão e, por isso, hospedava-se em hotéis e pensões.

No início, fazia muitos desses deslocamentos de bicicleta. Posteriormente, a empresa adquiriu uma motocicleta, permitindo que chegasse com maior rapidez aos locais onde seus serviços eram necessários.

Seu espaço de atuação ultrapassava General Rondon. A organização territorial vinculada ao projeto colonizador da MARIPÁ fazia com que os trabalhos alcançassem diferentes núcleos. Alfredo realizava instalações em localidades como Maripá, Sarandi, Pato Bragado, Margarida e Mercedes, então integrantes do município de Toledo.

Também trabalhou em instalações de estabelecimentos que marcaram a história local, entre eles o Hospital Filadélfia, a olaria de Arlindo Lamb e a antiga prefeitura.

Esses trabalhos ajudam a perceber que a chegada da eletricidade não pode ser compreendida apenas como uma realização administrativa ou empresarial. Entre a implantação de uma rede e a luz que finalmente chegava a uma residência ou estabelecimento existia o trabalho cotidiano de pessoas que instalavam fios, subiam em postes, realizavam reparos e percorriam grandes distâncias para manter o sistema funcionando.

Como Alfredo virou “Mosquito”

Entre as muitas lembranças preservadas sobre Alfredo Bausewein, uma delas explica a origem do apelido que o acompanharia pelo restante da vida.

Era Carnaval de 1958. Depois de um dia cansativo de trabalho e acreditando que teria folga no dia seguinte, Alfredo passou a noite participando das festividades e retornou para casa somente pela manhã.

A esperada folga, entretanto, não aconteceu. Surgiu uma emergência na rede elétrica de Novo Sarandi e Alfredo foi chamado para solucionar o problema. Segundo as memórias preservadas sobre aquele período, Willy Barth estava envolvido em campanha política, circunstância que teria aumentado as solicitações de atendimento. Mesmo depois de uma noite praticamente sem dormir, o jovem eletricista seguiu para o trabalho.

Foi então que ocorreu o episódio que atravessaria décadas nas narrativas locais. Conforme a história que passou a circular entre os moradores, Alfredo estava no alto de um poste, preso pelo cinturão de segurança utilizado no trabalho, quando teria adormecido. Para aqueles que passavam e observavam aquela figura agarrada ao poste, ele parecia um “mosquito elétrico”.

Nascia o “Mosquito”. A partir daquele episódio, o apelido ganhou força a tal ponto que, com o passar dos anos, muitas pessoas praticamente deixaram de chamá-lo de Alfredo.

A narrativa é significativa para além de seu caráter bem-humorado. A memória coletiva também se constrói por histórias como essa, repetidas nas conversas familiares e comunitárias até se tornarem referências compartilhadas. O apelido passou a integrar a identidade social de Alfredo e, simultaneamente, uma memória sobre os primeiros tempos da eletrificação de General Rondon.

Willy Barth, a Maripá e uma promessa interrompida

Alfredo costumava recordar Willy Barth como um bom patrão, embora muito exigente. Segundo suas lembranças, quando Barth determinava que algum trabalho precisava ser realizado, cabia ao trabalhador encontrar os meios para cumprir a tarefa.

Essa relação profissional também adquiriu uma dimensão pessoal. Entre as memórias familiares está a informação de que Willy Barth teria prometido a Alfredo um terreno com uma casa.

A promessa, entretanto, não chegou a se concretizar.

Em 1962, a morte súbita de Willy Barth provocou forte repercussão entre os moradores e afetou atividades que estavam sob sua coordenação. Como não havia documento formalizando a promessa feita a Alfredo, a direção executiva da MARIPÁ, sediada no Rio Grande do Sul, não a reconheceu.

“Mosquito” ficou sem a casa prometida. O episódio permite observar uma característica daquele período: em meio às estruturas empresariais que organizavam o processo de colonização, muitas relações também eram construídas por meio da palavra, da confiança pessoal e dos vínculos estabelecidos entre indivíduos. Com a ausência daquele que havia assumido verbalmente o compromisso, revelavam-se os limites dessas relações quando confrontadas com a estrutura formal da empresa.

A Casa dos Faróis

Alfredo, contudo, prosseguiu sua trajetória profissional. Em 1963 iniciou seu próprio empreendimento: a Auto Elétrica Paraná, que se tornaria conhecida pelo nome fantasia Casa dos Faróis.

O estabelecimento atuava na comercialização de materiais elétricos, consertos e instalações. A abertura do negócio marcou uma nova etapa de sua vida. O jovem que chegara do Rio Grande do Sul com a família e começara trabalhando para a colonizadora passava a construir seu próprio espaço profissional em uma localidade que também crescia e se transformava.

Sua experiência técnica não ficou restrita à eletricidade. Alfredo participou ainda da instalação e manutenção das linhas telefônicas implantadas pela MARIPÁ em Marechal Rondon e em outros núcleos urbanos pertencentes à área de colonização da empresa.

Eletricidade e telefonia representavam transformações significativas para aquelas comunidades. A primeira modificava as noites, o trabalho, os estabelecimentos e a vida doméstica; a segunda encurtava, simbolicamente, distâncias que as difíceis estradas daquele período tornavam ainda maiores.

Alfredo também não viveu apenas para o trabalho. Participou de atividades esportivas, recreativas e sociais em Marechal Rondon e em outras localidades da região, construindo vínculos que contribuíram para torná-lo uma figura conhecida pela comunidade.

A memória de um eletricistas

Alfredo Bausewein faleceu em 3 de dezembro de 2022, aos 88 anos. O “Mosquito”, entretanto, permaneceu na memória rondonense.

Recordar sua trajetória permite compreender que a história da energia elétrica não é constituída somente por datas de inauguração, empresas, equipamentos, motores, postes e redes. Ela também é feita pelas experiências dos trabalhadores que colocaram essa infraestrutura em funcionamento e pelas lembranças daqueles que presenciaram as mudanças provocadas por ela.

A trajetória de Alfredo dialoga, dessa maneira, com uma dimensão maior da história de General Rondon. Sua chegada em 1953 ocorreu em meio ao movimento migratório que transformava rapidamente o Oeste do Paraná. Seu trabalho acompanhou a formação dos núcleos urbanos, a expansão dos serviços e a introdução de tecnologias que gradualmente modificavam a vida cotidiana.

A fotografia da década de 1950, portanto, registra mais do que três funcionários no escritório da MARIPÁ. Quando observada à luz das memórias preservadas pelas famílias e pela comunidade, ela se transforma em documento de uma época.

Entre aqueles homens está um jovem eletricista que percorreu estradas de bicicleta, depois de motocicleta, instalou fios em casas e estabelecimentos, trabalhou em diferentes localidades e participou também da implantação das comunicações telefônicas. Um homem cujo nome acabou quase escondido por uma história contada e recontada durante décadas.

Alfredo Bausewein tornou-se “Mosquito”.

E, justamente porque a memória seleciona acontecimentos, preserva afetos e atribui novos significados às experiências vividas, aquele apelido aparentemente simples tornou-se um dos caminhos pelos quais sua presença continua inscrita na história de Marechal Cândido Rondon.

Lori Speck

Artigo escrito por Lori Speck.