O desfile de tratores de 1972: mecanização agrícola, progresso e identidade local

Imagem aprimorada e colorida com auxílio de Inteligência Artificial.

A fotografia registra um desfile de tratores Valmet realizado em 1972, na Avenida Rio Grande do Sul, seguindo pela Rua Mem de Sá em direção à Praça Dealmo Selmiro Poersch, em Marechal Cândido Rondon, por ocasião das comemorações do 12º aniversário de emancipação político-administrativa do município, instituído pela Lei Estadual nº 4.245, de 25 de julho de 1960. Mais do que o registro de uma festividade cívica, a imagem constitui um testemunho visual das transformações econômicas, tecnológicas e sociais que caracterizavam o município no início da década de 1970, período em que a mecanização agrícola adquiria crescente importância na organização da produção rural.

Na composição fotográfica, uma extensa sequência de tratores ocupa a avenida, formando um cortejo que se prolonga em direção ao horizonte. A disposição ordenada das máquinas, conduzidas por seus operadores, contrasta com a movimentação espontânea dos moradores que acompanham o desfile pelas calçadas e pelas margens da via. Homens, mulheres e crianças integram a cena, alguns observando a passagem dos veículos, outros circulando de bicicleta ou permanecendo próximos aos tratores. Ao fundo, as edificações comerciais e residenciais, os postes de iluminação, os automóveis estacionados e a arborização compõem uma paisagem urbana que permite reconhecer características da cidade naquele momento histórico.

Um aspecto particularmente significativo da fotografia é a presença dos tratores como protagonistas de uma celebração pública. Equipamentos destinados ao trabalho cotidiano nas propriedades rurais são deslocados de seu espaço habitual de utilização e apresentados no centro urbano, adquirindo, naquele contexto, uma dimensão simbólica. Ao percorrerem as ruas da cidade, as máquinas deixam de representar exclusivamente instrumentos de produção e passam a expressar expectativas de modernização, crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico. A avenida transforma-se, assim, em um espaço de visibilidade da atividade agrícola, aproximando simbolicamente o universo rural da vida urbana.

O desfile ocorreu em um período de expansão da mecanização agrícola no Oeste do Paraná, associado à incorporação de novas tecnologias, à ampliação do uso de implementos agrícolas e às mudanças nas formas de organização do trabalho no campo. A substituição gradual da tração animal e de determinadas atividades manuais pelo emprego de máquinas modificou as práticas produtivas, ampliando as possibilidades de cultivo e alterando as relações entre agricultores, fornecedores de equipamentos e estabelecimentos comerciais. Essas transformações, entretanto, não ocorreram de maneira uniforme, pois o acesso à mecanização dependia de condições econômicas, disponibilidade de crédito, características das propriedades e possibilidades de investimento dos produtores rurais.

Nesse contexto, a presença de numerosos tratores Valmet no desfile pode ser interpretada como uma manifestação da importância que a tecnologia agrícola assumia no imaginário do progresso local. A exibição pública das máquinas projetava uma imagem de dinamismo econômico e capacidade produtiva, ao mesmo tempo em que conferia visibilidade aos agricultores e ao setor agrícola nas comemorações oficiais. A fotografia, contudo, não permite concluir que a mecanização estivesse igualmente difundida entre todos os produtores, mas evidencia sua valorização como símbolo de modernidade naquele momento.

A imagem também possibilita refletir sobre as relações entre memória, representação e identidade coletiva. Conforme a perspectiva de Maurice Halbwachs, as lembranças individuais são construídas e reorganizadas a partir dos grupos sociais aos quais os sujeitos pertencem. Nesse sentido, acontecimentos públicos, como os desfiles comemorativos, podem constituir referências compartilhadas na memória da população, especialmente quando associados a experiências de trabalho, transformações da paisagem e acontecimentos considerados significativos para a trajetória municipal.

Sob essa perspectiva, o desfile de tratores de 1972 ultrapassa a dimensão de uma comemoração de aniversário. Ele permite compreender como determinadas representações do desenvolvimento econômico foram incorporadas às celebrações cívicas e como o trabalho agrícola passou a ocupar um lugar de destaque na construção da imagem pública de Marechal Cândido Rondon. Ao mesmo tempo, convida a considerar outras experiências vinculadas à modernização do campo, incluindo as dificuldades de adaptação às novas tecnologias, as diferenças entre os produtores e as mudanças nas relações de trabalho, aspectos que nem sempre aparecem nas representações festivas do progresso.

Preservada pelo Memorial Rondonense, a fotografia constitui, portanto, uma fonte relevante para a compreensão da história local. Seu valor não reside apenas na identificação das máquinas, das ruas ou dos participantes, mas também na possibilidade de interpretar os significados atribuídos à agricultura e à modernização tecnológica naquele contexto. Ao reunir, em uma mesma cena, tratores, agricultores, moradores e elementos da paisagem urbana, o registro evidencia a estreita relação entre campo e cidade na formação histórica do município.

Assim, o desfile de 1972 permanece como uma expressão visual de um período de transformações, no qual a mecanização agrícola se afirmava como uma das referências do desenvolvimento regional. Ao ser preservada e reinterpretada no presente, a fotografia contribui para a construção da memória coletiva, para o reconhecimento das experiências dos sujeitos que participaram dessas mudanças e para a compreensão dos processos históricos que constituíram a identidade agrícola de Marechal Cândido Rondon.

Lori Speck

Mestre em história social pela UFF de RJ, historiadora, pesquisadora, escritora e autora, entre outras obras, de “Memórias e vozes contam a história dos distritos ” 1ª e 2ª edição.