Tempo de Heróis

Por: Vítor Beal

Um depoimento importante e altamente ilustrativo sobre as PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), concedido pelo doutor Avelino Campagnolo, prefeito de Toledo na 5.ª gestão (1965-1968).

“Naqueles intermináveis meses, os dias eram quentes e secos. A falta de chuvas perdurava havia pelo menos seis meses e preocupava a todos – e ainda duraria mais seis meses após a Passeata das Velas. Apesar da nova turbina da Usina Carlos Mathias Aloysius Becker, recentemente inaugurada por mim, pouco se poderia esperar. Essa nova geradora de 700 kW representava quase a soma das outras três já existentes quando assumi a Prefeitura, de 250 kW cada, mas o tempo não colaborava. A água era represada durante o dia para que, com a energia de apenas uma turbina – das 18h às 22h –, fosse possível suprir parcialmente a necessidade de eletricidade do município.

Como prefeito, marquei uma audiência de emergência com o então governador Paulo Pimentel, que ofereceu, em comodato, um gerador que estava no município de Palmeira, o qual imediatamente cedi à empresa Sadia para auxiliar em suas demandas.

Alguns pretendiam que a Copel assumisse o abastecimento de energia da cidade, mas desconheciam, ou omitiam, que a empresa ainda estava se instalando no município vizinho de Cascavel e, mesmo que pudesse vir para Toledo, isso levaria algum tempo.

Quando a Copel fez a proposta para geração e transmissão de energia em Toledo, queria simplesmente encampar todo o patrimônio do setor elétrico, que incluía linhas de transmissão e grupos geradores pagos pelos cidadãos toledanos. Assinale-se que muitos desses investimentos foram viabilizados por contribuições espontâneas dos munícipes, além dos impostos.

Além de cobrar caro por uma energia que era barata, a Copel não pagaria um tostão para ficar com equipamentos e linhas de transmissão. Obviamente, eu não poderia concordar. A energia é um bem precioso e eu a antevia como uma arma estratégica para o desenvolvimento do nosso município.

Na época, não se falava em PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas). Hoje, elas são uma realidade consolidada no setor hidrelétrico. Segundo o Centro Nacional de Desenvolvimento de PCH, em dados de 2008, havia 227 unidades em todo o país, responsáveis por 1,16% da geração nacional de energia. Elas reduzem o elevado custo socioambiental das grandes hidrelétricas, que, com suas imensas áreas alagadas, alteram o ecossistema, inundam importantes áreas férteis – que deixam de produzir riquezas e alimentos – e desalojam, por vezes, milhares de famílias.

Poços de Caldas, em Minas Gerais, com seu Departamento Municipal de Energia (DME), foi uma dessas cidades de visão. Produz boa parte da energia consumida no município e é responsável por 100% da transmissão. Gera receita, empregos e impulsiona o desenvolvimento tecnológico em um setor estratégico de vanguarda. Em 2004, o DME conquistou o Prêmio IASC Brasil, da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), como a melhor concessionária do país junto aos seus consumidores.

Há outros exemplos. Em Armazém, Santa Catarina, uma cooperativa de energia gera eletricidade para os cooperados da cidade e dos municípios de São Bonifácio e São Martinho. Energia mais barata, que fomenta o desenvolvimento.

Ainda na minha gestão, foi ampliada a Usina de Sarandi, que também gerava energia para o município de Marechal Cândido Rondon. Logo depois, foi construída a moderna Usina de Sobradinho e, com ela, inaugurada a bela iluminação pública a vapor de sódio de Toledo.

Mais tarde, eu mesmo consegui o terreno onde a Copel se instalou, nas proximidades do Yara. Se tivéssemos tido o apoio e, sobretudo, a visão de lideranças e jovens políticos toledanos, talvez hoje estivéssemos trilhando os caminhos de Poços de Caldas e teríamos mais um motivo para nos orgulhar.

Quanto à Passeata das Velas, cada qual vê aquilo que quer ver. Legítimo é o direito de manifestar-se. Mas o interesse do povo está acima de tudo.”

Recordações da campanha eleitoral

“Em épocas de campanhas políticas, tudo era improvisado. Lembro-me de um comício que realizamos ali onde hoje está o Bradesco, em frente à Praça Willy Barth, que na época tinha apenas um monte de taquaras, xaxins e algumas lâmpadas. Armamos nosso caminhão e nos preparamos, ainda com a rua de chão batido.

A turma da oposição era tão ousada que, onde encontrava um grupo de menores, alunas e alunos de colégio – hoje isso seria crime, mas naquele tempo não havia nada disso –, pegava um balaio de ovos podres e os jogava, no escuro, sobre nós. Acabavam com os comícios, pois o mau cheiro era insuportável.

Mas não desistimos. No dia das eleições, eles montaram um aparato em que se buscava o eleitor na porta de sua casa, orientava-se o voto com a cédula na mão e o acompanhava até a boca da urna, pois não existia nada dessas regras que há hoje: vigilância rigorosa, distância mínima das urnas e tantas outras exigências. Naquele tempo, praticamente tudo era permitido.

Quem tinha maior poder econômico costumava levar mais eleitores e, certamente, mexia as eleições.

Moral da história: a eleição ocorreu nessa grande área que compreendia o município de Toledo, e nós chegamos ao final completamente esgotados fisicamente. Financeiramente, nem se fala.

Afinal de contas, conseguimos vencer uma eleição desse porte com 63% dos votos do município. Foi um verdadeiro alvoroço. Nunca esqueço que, no dia da vitória, parecia que Toledo havia vindo abaixo. E este “peteba”, sem experiência.

Mas os grupos que me apoiaram logo tomaram a frente, organizaram a grande festa e tudo o mais. Lembro-me de que havia um depósito de bebidas da Kaiser, cujo estoque devia ter uns doze barris de chope. Pegamos os barris e, juntamente com diversos apoiadores e colaboradores, fomos para debaixo do taquaral, na Praça Willy Barth, comemorar. Foi uma grande festa, e nos divertimos muito.”

(Depoimentos inseridos no livro Tempo de Heróis).

Vitor Beal

Vitor Beal

Cidadão Honorário de Toledo, escritor, historiador autodidata, filho de pioneiros toledanos, autor dos livros: Tempo de Heróis, Um Coração Valente, Vitoriosos, Conquistas e Marcas de Toledo, autor intelectual da Bandeira de Toledo.