“Wilhelm Hanisch levava uma existência modesta na periferia norte de Rondon“.
Uma lápide simples, esculpida em tijolos e cimento, e perdida há meio século em meio a centenas de túmulos no cemitério municipal de Marechal Cândido Rondon, resume uma história de vida que começou no final do século XIX, passou por duas guerras mundiais, envolveu êxodo forçado e emigração, e terminou em uma área de colonização teuto-gaúcha no Oeste paranaense.
Nascido a 4 de março de 1892 em Skeyden (perto de Glogau), uma pequena aldeia a 270 quilômetros de Berlim, o pioneiro rondonense Wilhelm Johann Hanisch foi marinheiro a serviço do Kaiser (imperador) Wilhelm II no conflito de 1914-1918 e às ordens do Führer Adolf Hitler na II Guerra Mundial.
Filho primogêmito de pequenos agricultores (August Hanisch e Bertha Stein), Wilhelm cresceu no sítio dos pais ao lado de três irmãos – Paul, Bertha e Maria. O cotidiano da infância e juventude resumia-se às brincadeiras próprias da idade, ajudar nas tarefas agrícolas e frequentar a escola. O mundo parecia em ordem na Alemanha imperial dos Hohenzollern, assim também na pequena Skeyden com seus 200 habitantes.
Em agosto de 1914, uma onda de fervor patriótico varreu o país. Levas imensas de manifestantes saíam às ruas, entoando vivas ao Kaiser. A Alemanha estava em guerra e mobilizava suas forças contra a Rússia czarista e a França. O que deveria ser um conflito localizado, evoluiu para um morticínio que conhecemos hoje como I Guerra Mundial, envolvendo 25 países e matando 17 milhões pessoas.
O conflito encontrou o jovem Hanisch já integrado à Marinha de Guerra alemã. Reza a crônica familiar que alguns anos antes, ainda menor de idade, ele havia escrito uma petição ao Kaiser solicitando sua incorporação à Kriegsmarine. Foi a primeira manifestação do espírito aventureiro que o acompanharia por toda a vida. O imperador atendeu o pedido.
Derrotada a Alemanha, o marinheiro voltou para casa, ileso. Na década de 1920, decidiu tentar a sorte no Brasil. Mas foi por pouco tempo. Retornou à pátria em 1928 para se incorporar à Reichswehr, posteriormente Wehrmacht (Forças Armadas), agora como Berufssoldat, soldado profissional, de carreira, relata seu sobrinho Christian Hanisch.
Como militar, Hanisch vivenciou a ascensão de Hitler, a consolidação do III Reich e a II Guerra Mundial. Quando a Alemanha invadiu a Noruega, em 1940, ele fazia parte da tropa de ocupação. E lá quase morreu, ao ser atingido pelos estilhaços de um mina.
Christian Hanisch viu o tio pela última vez em meados de 1944, em Skeyden, quando ele se recuperava dos ferimentos recebidos na Noruega. Depois, os desdobramentos da guerra e a reformulação do mapa geopolítico da Europa separaram tio e sobrinho.
Hanisch, que terminou a guerra com a graduação de Stabsfeldwebel (sargento) da Marinha, caiu prisioneiro dos ingleses na região de Schleswig-Holstein. Jamais voltou à terra natal. Já a população de Skeyden foi expulsa em 1945 pelas tropas de Stalin. A aldeia, incorporada à Polônia, chama-se hoje Skidniów.
O clã Hanisch – pais e filhos – fugiu para o leste em janeiro de 1945, em pleno inverno, instalando-se em área que a partir de 1949 seria território da República Democrática Alemã (Deutsche Demokratische Republik – DDR, comunista). Christian Hanisch tinha sete anos na época e guarda vivas lembranças dessa jornada marcada pelo medo, a fome, as bombas e a incerteza. A família intentou se reinstalar na propriedade depois do final da guerra, mas foi expulsa novamente em julho. Paul Hanisch, irmão de Wilhelm e pai de Christian, chegou a ser preso por uma patrulha soviética. Conseguiu escapar e livrar-se, assim, de um destino que poderia ter sido a deportação para trabalhos forçados na Sibéria.
Os pais de Christian estabeleceram-se em Kunersdorf junto a Cottbus. O sobrinho do pioneiro rondonense diplomou-se no início dos anos 1960 em eletrotécnica pela Universidade Técnica de Dresden, completou o doutorado em 1969 e mais tarde especializou-se em informática. Fez carreira em empresas estatais e institutos técnicos da antiga DDR. Em maio de 1990, após a queda do muro de Berlim e o fim do monopólio dos comunistas na DDR, Christian filiou-se à à União Democrática Cristã (CDU) e foi eleito deputado provincial pela circunscrição de Cottbus-Land. Vive hoje em Kunersdorf/Cottbus, na casa construída pelo pai em 1960.
Enquanto os Hanisch tentavam refazer a vida no leste, inicialmente sob o tacão dos russos e depois dos comunistas da SED – Sozialistische Einheitspartei Deutschlands, o ex-marinheiro preferiu ficar no oeste, na zona de ocupação americana da Alemanha. Em 1949, residia na Stroofstrasse 33, bairro Griesheim, em Frankfurt am Main. Christian presume que o tio talvez prestasse serviços para os americanos antes de, mais uma vez, emigrar para o Brasil.
Solteiro e sem recursos, Wilhelm Johann Hanisch chegou ao porto de Santos (SP) no dia 4 de novembro de 1949, a bordo do navio francês “Desirade”, da Cie. Chargeurs Réunis. Trazia um simples “Temporary Travel Document” emitido pelas autoridades aliadas de ocupação da Alemanha e uma ficha consular de qualificação assinada pelo coronel Aurélio de Lyra Tavares, chefe da missão militar brasileira em Berlim. Lyra Tavares seria, duas décadas depois, ministro do Exército e integrante da Junta Militar que sucedeu o presidente Costa e Silva em 1969.
O imigrante, que se dizia operário, tinha como destino Santa Cruz do Sul (RS), onde seria acolhido pela empresa Hoppe & Cia. À frente desse empreendimento estava Felix Hoppe, nascido em 1888 em Kotzemeuschel, localidade vizinha de Skeyden, e que se tornou um próspero empresário no Rio Grande do Sul. Christian supõe que seu tio Wilhelm e Felix tinham relação de amizade desde a juventude, na Alemanha. E foi o amigo bem-sucedido no Brasil que lhe antecipou os recursos para a viagem.
A pandemia de Covid-19 limitou a pesquisa sobre os passos de Hanisch no Sul do Brasil. Ele trocou Santa Cruz do Sul por Marechal Cândido Rondon, onde chegou talvez ainda nos anos 1950 ou o mais tardar no início da década seguinte. Refez o contato com os familiares na Europa, mantendo ativa correspondência durante anos. Mandava notícias pessoais, recortes de jornais e fotos – a fotografia, relata Christian, foi seu principal “hobby” durante toda a vida. Os parentes também receberam coisas incomuns como uma pele de cobra e chá de lapacho (ipê roxo), do qual o imigrante era entusiasmado divulgador.
“Era um homem com interesses moldados por uma visão humanista. Depois da I Guerra, por exemplo, participou de campanhas pela proibição de munições do tipo dum-dum. Seu espírito aventureiro e a condição de marinheiro o levaram conhecer boa parte do mundo”, comenta Christian.
Wilhelm Hanisch levava uma existência modesta na periferia norte de Rondon. Durante anos, tentou elevar o valor da acanhada aposentadoria que recebia do governo alemão. Frequentava a casa do pastor luterano Joachim Pawelke. Chegava sempre com a mesma pergunta: “Tem lanche?” A esposa do pastor sorria e lhe dava de comer. O imigrante faleceu no Hospital Filadélfia, de câncer no estômago, no dia 22 de março de 1971. Só, sem família. Tinha 79 anos.
* Jornalista cascavelense.
NB. Crédito e acervo de imagens do autor.

